Valsa fúnebre de Hermengarda

Lêdo Ivo

Valsa fúnebre de Hermengarda - Lêdo Ivo
Valsa fúnebre de Hermengarda - Lêdo Ivo

Valsa fúnebre de Hermengarda – Lêdo Ivo

 

Eis-me junto à tua sepultura, Hermengarda,

para chorar a carne pobre e pura que nenhum de nós viu apodrecer.

 

Outros viriam lúcidos e enlutados,

porém eu venho bêbado, Hermengarda, eu venho bêbado.

E se amanhã encontrarem a cruz de tua cova jogada ao chão

não foi a noite, Hermengarda, nem foi o vento.

Fui eu.

 

Quis amparar a minha embriaguez à tua cruz

e rolei ao chão onde repousas

coberta de boninas, triste embora.

 

Eis-me junto à tua cova, Hermengarda,

para chorar o nosso amor de sempre.

Não é a noite, Hermengarda, nem é o vento.

Sou eu.

 

Em “As imaginações”. In: Poesia completa (1940-2004)

 

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