Capital de Financiamento e Juros

Gestão de Obra Segundo Karl Marx

Capital de Financiamento e Juros

Na sociedade capitalista desenvolvida o capital de financiamento desempenha um papel significativo como massa de capital existente fora do processo de produção, com a aparência de ser independente desse processo, e não obstante sendo por ele afetada e afetando-o de várias maneiras. O capital de financiamento passa por várias formas, inclusive a de ações, obrigações e empréstimos. Embora Hilferding tenha desenvolvido uma teoria marxista de suas complexas inter-relações, Marx focalizou a sua atenção no capital a juros e nas formas de capital fictício (títulos de renda) a ele associadas.

O capital a juros é uma mercadoria alienada de seu proprietário por um prazo específico. Na teoria de Marx, não inclui certas modalidades de empréstimos, como no caso do crédito ao consumidor, aos trabalhadores (classificado como usura), mas apenas os empréstimos a capitalistas que destinam o dinheiro à produção. Usando esses empréstimos para financiar a produção, gera-se a mais-valia, e uma parte desta é transferida, sob a forma de juros, aos emprestadores capitalistas financeiros. O valor de troca do capital a juros são os juros que têm de ser pagos, ao passo que a sua capacidade de financiar a produção de mais-valia é o seu valor de uso.

Os fatores que governam o movimento da taxa de juros e a massa de juros não estão claros nas obras do próprio Marx. No terceiro volume de O Capital (parte V), Marx ressalta que a taxa de juros é determinada pelas forças “acidentais” da oferta e da procura, que refletem o equilíbrio de forças entre os capitalistas financeiros e industriais. Como estes são essencialmente frações da mesma classe, não há lei que estabeleça uma distinção definida, embora essa lei exista para as formas de renda, como salários, que refletem a divisão fundamental entre as duas grandes classes do capitalismo. Apesar disso, os juros, tanto a sua taxa como a sua massa, são vistos como limitados pela taxa de lucro total gerada pela produção. E a lei da tendência decrescente da taxa de lucro juntamente com o desenvolvimento dos segmentos bancários e dos rentistas (rentiers) deve levar a um declínio a longo prazo no nível dos juros. No curto prazo, as flutuações da taxa de juros são consideradas como produto do ciclo econômico subjacente: a taxa de juros geralmente é baixa na fase de prosperidade, elevando-se ao pico quando ocorre a crise econômica. Hilferding (1981) explica esses movimentos a partir das desproporcionalidades entre setores que surgem no curso do ciclo e amplia a análise para mostrar como esses movimentos cíclicos da taxa de juros, por sua vez, afetam a atividade financeira ao longo do ciclo e podem precipitar as crises financeiras antes mesmo do início de uma crise econômica generalizada (embora a primeira continue sendo “apenas um sintoma, um presságio, da segunda crise”).

Na teoria de Marx, o capital a juros, embora dependente em última análise do capital industrial, permanece fora, e é uma categoria mais universal, mais desimpedida. Sob esse aspecto, mantém uma analogia com o caráter de externalidade, universalidade e liberdade por Marx atribuído ao dinheiro em relação às mercadorias no primeiro livro de O Capital. Da mesma forma, a taxa de juros surge como uma categoria mais pura do que a taxa de lucro. É calculada de forma transparente e proporciona um número único (embora, aqui, Marx estivesse exagerando), em comparação com a multiplicidade de diferentes taxas de lucro sobre diferentes capitais. [4]

 

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