Comunismo

Gestão de Obra Segundo Karl Marx

Comunismo

Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha.

Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou a seus adversários de direita ou de esquerda a pecha infamante de comunista? Duas conclusões decorrem desses fatos:

1a. O comunismo já é reconhecido como força por todas as potências da Europa;

2.a. É Tempo de os comunistas exporem, à face do mundo inteiro, seu modo de ver, seus fins e suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo.

Com este fim, reuniram-se, em Londres, comunistas de várias nacionalidades e redigiram o manifesto seguinte, que será publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês. [1]

O comunismo distingue-se de todos os movimentos que o precederam pelo fato de alterar a base das relações de produção e de troca anteriores e de, pela primeira vez, tratar as condições naturais prévias corno criações dos homens que nos antecederam, despojando-as da sua aparência natural e submetendo-as ao poder dos indivíduos unidos. A organização que proclama é, por isso mesmo, essencialmente econômica: é a criação material das condições dessa união; transforma as condições existentes nas condições da união. O estado de coisas assim criado constitui precisamente a base real que torna impossível tudo o que existe independentemente dos indivíduos – pois esse estado de coisas existente é pura e simplesmente um produto das anteriores relações dos indivíduos entre si. Deste modo, os comunistas tratam praticamente como fatores inorgânicos as condições criadas antes deles pela produção e o comércio. Isto não significa que considerem que a razão de ser ou a intenção das gerações anteriores foi de lhes fornecer bases materiais, ou que pensem terem sido essas condições consideradas inorgânicas por aqueles que as criaram. A diferença entre o indivíduo pessoal e o indivíduo contingente não constitui uma distinção conceptual, mas um fato histórico. Esta distinção tem um sentido diferente em épocas diferentes: por exemplo, a ordem, enquanto contingência para o indivíduo no século XVIII, assim como plus ou moins a – família. É uma distinção que não necessita de ser feita por nós, pois cada época se encarrega de a fazer a partir dos diferentes elementos que herda da época anterior, fazendo não a partir de um conceito mas sob a pressão dos conflitos materiais da vida. Aquilo que numa época ulterior surge como contingente por oposição à época anterior, ou mesmo entre os elementos herdados dessa época anterior, é uni modo de trocas que corresponde a um determinado desenvolvimento das forças produtivas. A relação entre forças produtivas e formas de troca é a relação entre o modo de trocas e a ação ou a atividade dos indivíduos.

(A forma básica dessa atividade é naturalmente a forma material de que depende qualquer outra forma intelectual, política, religiosa, etc. É certo que a diferente forma adquirida pela vida material é em cada ocasião dependente das necessidades já desenvolvidas, necessidades essas cuja produção e satisfação constituem um processo histórico impossível de detectar nos carneiros ou nos cães [argumento capital de Stirner adversus hominem de pôr os cabelos em pé] se bem que os carneiros e os cães, na sua forma atual sejam. malgré eux produtos de um processo histórico.) Antes de a contradição se manifestar, as condições em que os indivíduos se relacionam entre si são condições inerentes à sua individualidade; não lhes são de forma alguma exteriores e. além disso, permitem por si sós que esses indivíduos determinados, vivendo em condições determinadas, produzam a sua vida material e tudo o que dela decorre; são portanto condições da sua manifestação ativa dei si, produzidas por essa. manifestação de si Por conseguinte, as condições determinadas em que os indivíduos produzem antes de a contradição se manifestar correspondem à sua limitação efetiva, à sua existência limitada; este caráter limitado só se revela com o aparecimento da contradição e existe, por isso, para a geração ulterior. Esta condição aparece assim como um entravei acidental, atribui-se consequentemente à época anterior a consciência de que constituía um entrave.

Estas diferentes condições, que surgem primeiramente como condições da manifestação de si, e mais tarde como seus obstáculos, formam em toda a evolução histórica uma seqüência coerente de modos de troca cujo laço de união é a substituição da forma de trocas anterior, que se tornara um obstáculo, por uma nova forma que corresponde às forças- produtivas mais desenvolvidas e, por isso mesmo ao modo mais aperfeiçoado da atividade dos indivíduos. forma que à son tour se transforma num obstáculo e é então substituída por outra. Na medida em que, para cada estádio, essas condições correspondem ao desenvolvimento simultâneo das forças produtivas, a sua história é também a história das forças produtivas que se desenvolvem e são retomadas por cada nova geração, e é consequentemente a história do desenvolvimento das forças dos próprios indivíduos.

Este desenvolvimento, produzindo-se naturalmente, isto é, não estando subordinado a um plano do conjunto estabelecido por indivíduos associados livremente, parte de localidades diferentes, de tribos, de nações, de ramos de trabalho distintos, etc., cada um deles se desenvolvendo primeiro independentemente dos outros e apenas estabelecendo relações entre si a pouco e pouco. Progride, aliás, lentamente: os diferentes estádios e interesses nunca são complemente ultrapassados, mas apenas subordinados ao interesse que triunfa, ao lado do qual se arrastam ainda durante séculos.

Daí resulta a existência de diferentes graus de desenvolvimento entre os indivíduos de urna mesma nação, mesmo se abstrairmos das suas condições financeiras: e também o fato de um interesse anterior, cujo modo de trocas particular se encontra já suplantado por um outro correspondente a um interesse posterior, continuar ainda durante muito tempo, na comunidade aparente, em poder de uma força tradicional que se tornou autônoma relativamente aos indivíduos (Estado, direito): só uma revolução consegue, em última instância, quebrar essa força. Também assim se explica o motivo pelo qual a consciência, ao preocupar-se com aspectos singulares que são passíveis de uma síntese mais geral, pode por vezes ultrapassar aparentemente as relações empíricas contemporâneas, de tal modo que, nas lutas de – um período posterior, seja licito utilizar-se as conclusões a que possam ter chegado teóricos anteriores.

Pelo contrário, em países como a América do Norte, cuja existência se inicia num período histórico já desenvolvido, o desenvolvimento processa-se com rapidez. Tais países têm apenas como condição natural prévia os indivíduos que aí se estabelecem e que para ai foram como reação aos modos de produção dos velhos países, que já não correspondiam às suas necessidades.

Estes países começam pois com os indivíduos mais evoluídos do velho mundo, e por conseguinte com o modo de trocas mais desenvolvido, correspondente a esses indivíduos, mesmo antes de este sistema de trocas se ter conseguido impor nos velhos países. É o caso de todas as colônias que não foram simples bases militares ou comerciais, tais como Cartago, ais colônias gregas e a Islândia nos séculos XI e XII. Verifica-se um caso análogo quando, como resultado de conquista, se leva para o país conquistado o modo de trocas que se desenvolvera num outro solo; enquanto no seu país do origem esta forma se encontrava ainda em choque com os interesses e as condições de vida das épocas precedentes, aqui, pelo contrário. pode e deve implantar-se totalmente e sem quaisquer entraves ao conquistador (a Inglaterra e Nápoles depois da conquista normanda, altura em que conheceram a forma mais acabada da organização feudal). [8]

 

Veja também Alienação


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